Plata_Data #8

15 de maio, 2020 Plataforma PBPD Permalink









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International Journal of Drug Policy
Werb et al (2016)

Uma questão sempre levantada ao se falar de métodos não voluntários de tratamento para usuários problemáticos de substâncias é sobre a sua efetividade. Um dos princípios básicos do Instituto Nacional de Abuso de Drogas americano, o NIDA, reza que o tratamento não necessitaria ser voluntário para ser efetivo. Essa afirmação é frequentemente usada como justificativa para o tratamento compulsório. Entretanto, até esta revisão de 2016, ninguém havia analisado a literatura de forma sistemática em busca de resposta para essa questão. Uma equipe internacional liderada por pesquisadores do Centro Internacional pela Ciência na Política de Drogas, centro de pesquisas canadense, fez isso. Foi realizada uma extensa busca na literatura, usando 10 bases de dados e incluindo o SciELO. Foram encontrados 430 artigos potenciais, mas somente 9 atingiram critérios suficientes para permitir análise quantitativa. Destes, três estudos não apresentaram impactos significativos do tratamento obrigatório em comparação com as intervenções de controle; dois encontraram resultados ambíguos, mas não eram controlados; dois apontaram impactos negativos do tratamento obrigatório na reincidência criminal; e dois observaram impactos positivos do tratamento compulsório hospitalar na reincidência criminal e no uso de drogas. Diante destes resultados, além da óbvia constatação de que a existência de mais estudos experimentais quantitativos seria necessária, os autores concluem que, em geral, as evidências não sugerem melhores resultados relacionados ao tratamento compulsório, com alguns estudos sugerindo possíveis danos. Ao fim, dizem, “dado o potencial de violações dos direitos humanos em contextos de tratamento obrigatório, as modalidades de tratamento não obrigatório devem ser priorizadas pelos formuladores de políticas que buscam reduzir os danos relacionados às drogas”.

Fluoxetine effects on molecular, cellular and behavioral endophenotypes of depression are driven by the living environment.

Molecular Psychiatry 
Alboni et al (2017)

Sabemos há muitas décadas que os efeitos psicológicos e emocionais das drogas psicodélicas que agem no receptores da serotonina são fortemente determinadas pelo contexto de uso da droga – o setting. Apesar de agirem sobre os mesmos receptores, os medicamentos psiquiátricos mais utilizados para tratar a depressão, os inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS), não são prescritos sob qualquer especificação de setting. Embora largamente utilizados, os ISRS apresentam eficácia variável e incompleta. Para elucidar a causa dessa eficácia incompleta, pesquisadores da Itália e da Suiça exploraram a hipótese de que os ISRS podem não afetar o humor em si, mas, ao melhorar a plasticidade neural, tornar o indivíduo mais suscetível à influência do ambiente. Segundo essa hipótese, a administração de ISRS em um ambiente favorável promoveria uma redução dos sintomas, enquanto que em um ambiente estressante levaria a um pior prognóstico. A hipótese foi testada em camundongos tratados com o ISRS fluoxetina (e.g. Prozac) e expostos a estresse crônico ou ambiente enriquecido. Foram medidos vários sinais moleculares, comportamentais e celulares de depressão, incluindo comportamentos típicos da doença, neurogênese, níveis de fatores neurotróficos, atividade do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e mecanismos eletrofisiológicos da formação de memórias. Os resultados confirmaram a hipótese dos autores ao demonstrar que os diversos sinais de depressão foram efetivamente afetados pelo tratamento de acordo com a qualidade do setting. Camundongos tratados com fluoxetina em ambiente enriquecido tiveram melhora dos sinais em comparação com os controles, enquanto os tratados em condição estressante mostraram uma piora dos sinais. As descobertas reforçam a noção de que os efeitos das substâncias serotonérgicas – tanto as drogas psicodélicas quanto os ISRS – não são determinados pela droga em si, mas são induzidos pela droga e impulsionados pelo ambiente. Esses achados sugerem que a prática psiquiátrica convencional tem muito a aprender sobre setting com os terapeutas e xamâs psicodélicos.

The Philippines’ antidrug campaign: Spatial and temporal patterns of killings linked to drugs.

International Journal of Drug Policy
Atun et al (2019).

É fato conhecido que quando o presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte assumiu, em 2016, foi lançada uma campanha antidrogas com extenso uso de aparato repressor. A fala do presidente autorizava a execução sumária de traficante de drogas e houve clara organização de milícias paramilitares com o objetivo de realizar essa tarefa. O governo não só faz vista grossa para estas milícias como as parece incentivar. Este artigo teve como objetivo apresentar uma análise temporal e espacial dos assassinatos relacionados à guerra às drogas de Duterte. A partir de relatos da mídia, foi construída uma base de 5.021 assassinatos que foram considerados como associados ao uso ou comércio de drogas, em um período que foi do dia seguinte à eleição de Duterte (10 de maio de 2016) a 29 de setembro de 2017, quando a coleta se encerrou. Das mortes, aproximadamente metade foi causada por operações policiais. A outra metade foi reconhecida como sendo feita por ‘justiceiros’. A imensa maioria dos assassinados eram pessoas de baixa renda envolvidas com drogas e praticamente todos foram mortos por armas de fogo. Temporalmente, os três primeiros meses após a posse de Duterte foram os mais sangrentos. Houve mudança na liderança de quem esteve responsável pelas operações de repressão. Quando elas ficaram sob o encargo de entidades não ligadas à polícia, o número de mortes caiu, acontecendo o inverso quando a polícia voltou a ficar responsável. Do ponto de vista espacial, uma grande concentração das mortes ocorreu na região da capital, Manila. O artigo compara a guerra às drogas filipina a outras campanhas semelhantes, com destaque para a Tailândia, um caso menos conhecido internacionalmente, e aponta para o impacto, em termos de número de mortes, de se centrar a repressão na ação de unidades policiais em áreas de baixa renda. Em uma época em que o presidente do Brasil e, principalmente, o governador do Rio de Janeiro endossam o uso de forças mortais para o combate ao tráfico de drogas, é importante encontrar os paralelos com as Filipinas e realizar estudos semelhantes que apontem a ocorrência do fenômeno e suas consequências também no Brasil.

Crystal Structure of the Human Cannabinoid Receptor CB2.

Cell
Li et al (2019). 

O receptor canabinóide CB2 é predominante no sistema imunológico, e a ativação seletiva do CB2 – sem os efeitos psicoativos característicos do receptor CB1 – tem grande potencial terapêutico em doenças inflamatórias, fibróticas e neurodegenerativas. Esse estudo de um grupo de pesquisadores da China e EUA descreve pela primeira vez a estrutura molecular do CB2 humano ligado a um antagonista (inativador) do receptor. A pesquisa revelou uma estrutura geral bastante diferente da obtida com o receptor CB1. No entanto, os pesquisadores revelaram um fato surpreendente: a porção extracelular do CB2 ligado ao antagonista (desativador) compartilha um alto grau de similaridade com o CB1 ligado ao agonista (ativador). Essa semelhança inesperada pode estar na raiz da oposição de efeitos entre CB1 e CB2, uma relação yin-yang que se bem compreendida vai facilitar o desenho racional de medicamentos para uma modulação precisa do sistema endocanabinoide.

Tabagismo, cigarros eletrônicos e redução de danos: uma revisão narrativa.

Revista Ciências em Saúde 
Barreto (2018).

O tabagismo é um grave problema de saúde pública no Brasil. Sabe-se que as quantidades de substâncias tóxicas produzidas pela vaporização do tabaco é muito menor do que no caso de sua combustão no uso do fumo. O presente trabalho investigou o uso dos cigarros eletrônicos (vaporizadores) como possibilidade para reduzir os danos do consumo de tabaco, através de uma revisão de artigos em revistas científicas, livros e outras fontes relevantes. Os resultados indicam que cigarros eletrônicos podem ser menos prejudiciais à saúde se comparados a cigarros combustíveis e, portanto, têm potencial de serem utilizados para reduzir os danos do consumo de tabaco. Por outro lado, podem levar populações mais vulneráveis à iniciação ao tabagismo e ainda requerem estudos a fim de avaliar os efeitos na saúde a longo prazo. Há indícios recentes nos EUA de que o uso abusivo de vaporizadores por adolescentes por estar ligado a sérios problemas pulmonares (https://www.nytimes.com/2019/08/31/health/vaping-marijuana-ecigarettes-sickness.html). A moderação é um princípio fundamental da redução de danos, para qualquer droga, sob qualquer forma de uso, em qualquer setting.

sobre a plata_data:

A plata_data é a newsletter científica da Plataforma Brasileira de Política de Drogas.

plata_data será enviada todos os meses para as pessoas inscritas nesta lista, que também poderão indicar trabalhos pelo e-mail: plataforma@pbpd.org.br.

plata_data é editada pela Coordenação Científica da PBPD, composta pelo biomédico e doutor em neurociências Renato Filev, com a colaboração do neurocientista Sidarta Ribeiro, professor da UFRN, e Andrea Gallassi, terapeuta ocupacional e professora da UnB. Esta edição também contou com a colaboração do psiquiatra Luís Fernando Tófoli, professor da Unicamp e membro do Conselho Consultivo da PBPD. 

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