Questionar a Ciência é o mote da segunda mesa da Conferência da PBPD

20 de setembro, 2016 Harumi Visconti Permalink

Composta por pesquisadores, a primeira mesa debateu o papel do conhecimento na mudança da política de drogas

Restrito aos membros, o segundo debate da I Conferência da PBPD discutiu o papel das pesquisas e da produção de conhecimento na mudança da política de drogas. Mediada pelo antropólogo Maurício Fiore, coordenador científico da Plataforma, a mesa foi composta por Andrea Gallassi (Terapia Ocupacional/UnB), Luís Fernando Tófoli (Psquiatria/UNICAMP) e Sidarta Ribeiro (Neurociência/UFRN), membros do Conselho Consultivo da PBPD.

Na fala inicial, Maurício Fiore resgatou partes da discussão realizada na noite anterior, especialmente na relação entre o debate político e a construção do conhecimento, e de que maneira se dará a disputa pelo campo das drogas.

Para Luís Fernando Tófoli, o debate está imerso na moralidade trazida pelo tema. “Nós, antiproibicionistas, somos ativistas, mas os proibicionistas também são. E os dois se dizem detentores das evidências científicas”, afirma. Para o psiquiatra, não são os dados que vão mobilizar as pessoas, mas sim a conjunção entre a ciência e as narrativas ao redor das pesquisas.

Andrea Gallassi concordou e, na mesma linha, afirmou que a disputa deve ser pautada pela humanização das evidências. “Nosso papel como acadêmico é comunicar a ciência de uma maneira mais palatável”, disse. Na conclusão de sua fala, Gallassi ressaltou a importância de não se frustrar quando a sua hipótese cai por terra. “A gente tem que se ‘desengessar’. Só assim conseguiremos mudar e avançar”, afirmou.

Sidarta Ribeiro lembrou que, diferente do normalmente se imagina, “a ciência é anárquica e temporária”. Em toda a sua fala, o neurocientista enfatizou a necessidade de não enxergar a Ciência enquanto um dogma. O ceticismo, afirma, é o que permite que o campo científico avance. “Para os que veem a Ciência como religião, é aterrorizante quando ela muda de lado”, diz. Para Sidarta, não é papel da comunidade científica definir o que deve ou não ser proibido, mas sim oferecer dados e análises sobre possíveis caminhos.

A segunda rodada de perguntas abordou a multidisciplinariedade da ciência – e das armadilhas do discurso da neutralidade do campo. “É possível que o debate sobre política de drogas não seja um debate político?”, questionou Fiore.

Tófoli alertou para a necessidade do autoquestionamento permanente dos pesquisadores. As novas evidências e as revisões das pesquisas deveriam impactar em nas convicções pré-formadas, especialmente da comunidade médica. O psiquiatra ressaltou a importância do campo antiproibicionista apresentar cuidadosamente as evidências dos diversos campos do saber científico, como os dados de mortalidade da guerra às drogas em relação aos números de mortos em decorrência do uso problemático de drogas – um dos principais argumentos adotados por quem defende a reforma da política de drogas.

Andrea reforçou o argumento de Tófoli: “É necessário revisitar as pesquisas o tempo todo”. Em sua fala, a pesquisadora descartou a crença na neutralidade da ciência. Para ela, os debates acadêmicos estão permeados não só por viéses ideológicos, mas também por interesses político-econômicos.

A primeira rodada de intervenções foi aberta por Rubens Adorno (ABRAMD), professor de Saúde Pública da USP, seguido pelo antropólogo Edward McRae (CETAD). “A medicina não é ciência, é prática técnica e social”, afirmou Adorno. “Trabalhar como ativista no campo da política de drogas é entender que estamos lidando com um sistema de crenças”, disse ele. Já Edward reforçou as ideias trazidas ao longo da discussão e afirmou que é a medicina que detém o monopólio do debate sobre drogas – e esse é o fator que dificulta a inserção de outras áreas do conhecimento na produção de pesquisas do campo de drogas. Luana Malheiro (LANPUD) concordou e, segundo ela, que também é antropóloga, a medicina ajudou a fortalecer o que ficou conhecido como “pânico moral” a respeito das drogas. Na mesma linha, Tófoli problematizou: “Como denunciar essa questão sem afastar os médicos do debate?”.

Paulo Amarante – presidente de honra da ABRASME – levantou um tema delicado: a influência econômica na concepção e execução das pesquisas. “Tem centro de pesquisa financiado por laboratórios, com protocolos fechados”, afirma. Para ele, o debate sobre a produção científica deve ir além da ideologização do campo e abordar também a manipulação de dados e de evidências. Sidarta concorda. “É crescente o número de artigos retirados de revistas científicas sérias”, diz.

No encerramento do debate, Fiore ressaltou a importância de se congregar os demais campos às áreas da saúde e da medicina, rompendo com os estigmas entre as áreas e fortalecendo a multidisciplinariedade necessária para a produção do conhecimento nos temas relacionados ao uso e à política de drogas.