Plata_data: a newsletter científica da PBPD #14

2 de novembro, 2020 PLATAFORMA PBPD Permalink

Association of State Marijuana Legalization Policies for Medical and Recreational Use With Vaping-Associated Lung Disease

JAMA
Wing C, Bradford AC, Carroll AE & Hollingsworth A (2020)
Tempo médio de leitura: 4min 55sec

Pesquisadores buscaram avaliar o consumo de dispositivos de vaporização eletrônicos em estados com diferentes legislações para a regulação da cânabis nos Estados Unidos. Foi avaliada a incidência do consumo de cigarros eletrônicos e da doença pulmonar associada ao uso de vaporizadores (EVALI) relatadas pelo Centro de Controle de Doenças nas populações divididas por estados mais a capital Washington. Foi encontrada na análise uma redução significativa do consumo de cigarros eletrônicos e de EVALI nos estados que regularam o consumo adulto da maconha. Muitos dos pacientes que deram entrada nos serviços de emergência relataram que estavam utilizando o dispositivo para ingerir o THC, o maior responsável dos efeitos psicotrópicos da cânabis. Em 39 estados e capital, existe venda legal de produtos a base de cânabis, nem todos contam com a presença de THC. Em 10 estados e mais a capital, a venda de produtos com teores de THC elevados para o consumo adulto é legalizado. Nos outros estados, qualquer produto que tenha THC em sua composição é oriundo do mercado ilícito.

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Availability, retail price and potency of legal and illegal cannabis in Canada after recreational cannabis legalization

Drug and Alcohol Review
Mahamad S, Wadsworth E, Rynard V, Goodman S, & Hammond D. (2019)
Tempo médio de leitura: 5min 30sec

O artigo procura demonstrar a diferença dos mercados legais e ilegais no Canadá de venda de maconha dois meses após a legalização do uso adulto. O país passou a regular a fabricação, marketing e venda de produtos canábicos. As províncias e territórios do Canadá têm a função de regular os revendedores legais. Essa lei tem o objetivo principal de retirar os consumidores pré-existentes do mercado ilegal. Um dos desafios do estudo é estimar o tamanho do mercado ilícito pela falta de dados das fontes de compra. O preço é um dos fatores que mais influenciam nessa migração para o mercado regulamentado. Preços altos desencorajam o consumo, mas se a diferença entre o custo do produto legal-ilegal for alto, o mercado não regulamentado irá persistir. Novamente, pela falta de dados a respeito do mercado ilegal, se torna difícil estabelecer um preço padronizado. O preço também reflete na diferença de qualidade e potência de cada produto.

Cannabis use disorder and the lungs

Addiction
Gracie K & Hancox RJ (2020)
Tempo médio de leitura: 6min 58sec

O artigo, disponibilizado em “early view”, ou seja, uma versão online prévia à sua inclusão em uma edição regular da revista, faz uma revisão sobre o que se conhece acerca dos efeitos nos pulmões do consumo de maconha, e será publicado na Addiction, uma das revistas mais prestigiadas da área.

A maconha é a segunda substância mais comumente fumada, depois do tabaco, e a droga ilícita mais usada no mundo. O recente surto de lesão pulmonar associada aos cigarros eletrônicos nos Estados Unidos chamou ainda mais atenção aos efeitos pulmonares do uso de maconha. No entanto, ainda não está claro se a lesão pulmonar foi relacionada à própria maconha ou a outros ingredientes presentes nos líquidos dos cigarros eletrônicos, como o acetato de vitamina E.

Das dores que vazam: cotidiano, família e o trabalho do tempo no ativismo da maconha medicinal

Revista Mundaú – Programa de Pós-Graduação em Antropologia do Instituto de Ciências Sociais da UFAL
Nelvo RV (2019)
Tempo médio de leitura: 7min 59sec

O artigo trata dos dilemas cotidianos de familiares em torno do acesso à saúde no Rio de Janeiro, tendo como foco principal os desafios sociopolíticos e morais do ativismo pela maconha medicinal. A pesquisa que o originou parte de etnografia realizada em associações de mães e pais de pacientes, tendo o trabalho de campo sido conduzido entre outubro de 2017 e maio de 2019 na Associação de Apoio à Pesquisa e Pacientes de Cannabis Medicinal (APEPI).

O autor relata ter constatado uma presença marcante de famílias pobres e moradoras de favelas e de periferias no que denomina “movimento da maconha medicinal”, apesar de a literatura sobre o tema nem sempre registrar suas existências. Narra que muitas dessas famílias entram na militância com o desejo de que o Estado torne o medicamento uma política pública, pois acessam o direito à saúde por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). Destaca que para muitas pessoas, um habeas corpus preventivo para o plantio não é opção, considerando os territórios onde habitam e as condições de suas moradias. Assim, a estigmatização de drogas como ilícitas, o proibicionismo violento e a militarização da “guerra às drogas” impedem que essas famílias tenham o devido acesso à saúde.

The association between recreational cannabis commercialization and cannabis exposures reported to the US National Poison Data System

Addiction
Shi Y & Liang D. (2020)

Commentary on Shi & Liang 2020: Has cannabis legalization increased acute cannabis-related harms?
Addiction
Hall W & Stjepanović D (2020)

Tempo médio de leitura: 4min 17sec

O retorno progressivo da cânabis ao mercado legal, seja como droga terapêutica ou para o uso adulto, vem criando novas formas de consumo da substância em grande parte do mundo. Sua legalização traz em seu âmago a necessidade de otimizar o uso não-problemático, protegendo integrantes de grupos de risco e estabelecendo limites além dos quais se configura o uso problemático. Shi & Liang investigaram essa questão por meio de uma quantificação das chamadas (pedidos de auxílio) ao Sistema Nacional de Dados de Intoxicações dos EUA, comparando estados que legalizaram ou não o uso de cânabis entre 2010 e 2017, com ou sem vendas no varejo. Os pesquisadores observaram que o número de chamadas não aumentou em estados que legalizaram, mas cresceu nos estados que legalizaram as vendas comerciais. O aumento associado à comercialização foi maior entre menores que adultos, maior entre homens que mulheres, e maior para casos com consequências médicas do que para casos sem consequências médicas. Não está claro se os resultados refletem exclusivamente um aumento no número de intoxicações, ou também um aumento da vigilância parental/social nos estados em que a venda foi legalizada. Os achados são compatíveis com levantamentos parciais anteriores, como por exemplo no estado do Colorado.

Active smoking is not associated with severity of coronavirus disease 2019 (COVID-19)

European Journal of Internal Medicine
Lippi G & Henry BM (2020)
Tempo médio de leitura: 5min 50sec

Logo que começaram os relatos de mortes decorrentes da doença causada pelo novo coronavírus (COVID-19) foram anunciados como fatores de riscos a idade avançada, doenças crônicas como diabetes e hipertensão e doenças pulmonares.

Em diversas fontes se encontra a informação de que ser fumante também é fator de risco. Pela lógica, esse deveria ser o caso, já que o tabagismo pode causar prejuízo a diversos parâmetros pulmonares além de ser a principal causa de câncer de pulmão e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). Entretanto, é sabido que fumantes apresentam taxas mais baixas da enzima de conversão da angiotensina 2 (ACE2). A ACE2 é o receptor no qual o novo coronavírus se conecta para entrar nas células. Sendo assim, este estudo se propôs a examinar a melhor evidência disponível a respeito da potencial associação entre tabagismo e COVID-19 grave.

sobre a plata_data:

A plata_data é a newsletter científica da Plataforma Brasileira de Política de Drogas.

plata_data é enviada todos os meses para as pessoas inscritas nesta lista, que também poderão indicar trabalhos pelo e-mail: [email protected].

plata_data é editada pela Coordenação Científica da PBPD, coordenada pelo biomédico e doutor em neurociências Renato Filev, com a colaboração do neurocientista Sidarta Ribeiro, professor da UFRN, e Andrea Gallassi, terapeuta ocupacional e professora da UnB. Esta edição também contou com a colaboração do psiquiatra Luís Fernando Tófoli, professor da Unicamp e membro do Conselho Consultivo da PBPD, de Marcelo Dalla Vecchia, do NUPID-UFSJ e de Raissa Belintani, coordenadora de advocacy da PBPD.